MARY O AND THE PINK FLAMINGOS

Surf-punk psicodélico do jeito que diabo gosta

PAQUETÁ

O fino do surf music underground

10.4.18

Cream Cracker, Corpse Paint e Enxofre





Na derradeira sexta, estava eu arquitetando as coordenadas da diversão daquela noite quando chegou a info de que um belo trio ternura estabelecidos em Brasília estariam por essas bandas de cá. Fiquei sabendo que os mesmos estavam sedentos por um bom rolê na cidade, então começou surgir as possibilidades de lugares pro chamego das próximas horas. Entre as opções jogadas na roda de conversa do whats, brotou o interessante evento “Satã, apareça!”. Até então confesso que não queria fazer algo que envolvesse shows, mas sim bares ou boates. Mas acabou que me convenceram de ir pro lugar, no caso era A Toca Coletivo, e já fui me preparando para as aventuras daquela noite.

Com temática black metal, o esquema trazia pela primeira vez por essas bandas de cá a carioca Velho, além de outras atrações que citarei ao longo do escrito. Antes disso, quando a sirene tocou e a liberdade cantou, parti em rumo ao Jarinão, no trajeto que estava bastante ensolarado, fui ouvindo um bom Jazzmatazz Volume 1. Parei no peg-pag pra comprar uma latinha, soltei 3 dinheiros numa ampolinha semi-gelada. Foi o prazo de chegar na boca da praça cívica pra bebida ficar em temperatura ambiente, o que me fez jogar o restante que sobrou no alumínio numa lixeira que tinha dois pombos mortos. Castigado pelo solzão e levemente aliviado pela cerveja, cheguei no Jarina e a clássica session de discos estava pra iniciar. Entre umRatos de Porão ao vivo (aê, sofrê), Probot (projeto cabuloso do Dave Grohl), The Clash e mais alguma coisa que agora falhou na memória, descemos no Jesus (bar localizado embaixo do prédio) e adquirimos alguns litrões, além de um salgadinho de pele de porco que estava bem chegado no tempero marinho.

Passadas algumas horas, e com a clara intenção de economizar dinheiro com Uber, partimos em trio num coletivo do péssimo transporte público desta cidade. Durante o trajeto entraram algumas mulheres com sotaque nortista e agitaram um pouco o ambiente vazio do ônibus. Em determinada hora do itinerário, uma delas retirou uma embalagem aberta de Cream Cracker e foi oferecendo para as demais, e eu que estava no meio do bolo fui questionado na aceitação de uma unidade da bolacha. Com um pouco de vergonha e com um pouco de surpresa recusei educadamente a oferta e no decorrer do trajeto até o destino final, com as conversas mais idiotas possíveis, essas mulheres não conseguiam segurar o riso e caíam na gaitada. Descemos nas imediações do local do crime e antes disso passamos no mercado pra comprar umas cervejas. Passando no caixa pra acertar o que seria consumido, notamos um casal passando uma compra um tanto peculiar, no caso era uma garrafa de Domus juntamente com um refrigerante Goianinho Zero. Depois disso fomos pro local da festa invertida e percebi que já tinha uma boa movimentação de gentes. Adentrando no recinto, topei com uma galera que eu não via já tinha um certo tempo, perambulei pelo espaço do lugar, que é bem amplo e confortável de certa forma. Comprei algumas fichas de cerveja, pisei no gramado, já que não era proibido, sentei na muretinha e comecei a observar o pessoal. Desde as épocas antigas dos rolês do DCE que eu não via tanta galera que curte blackmetal reunida. Conversas aqui, cumprimentos ali, roustos conhecidos e desconhecidos que depois tornaram conhecidos (rizos) e chegou a notícia de que já tinha rolado a apresentação do Heia. Queria ter visto, mas paciência.

Aproveitei o intervalinho entre as bandas pra namorar os materiais que estavam expostos, confesso que quase fiz loucura por conta do consumismo, tinha muita coisa legal, mas segurei a onda e voltei pro meu lugar de origem. Passado isso, adentrei na salinha pra apreciar a próxima banda, que no caso era aOrgiy of Flies, death metal de Formosa. Tudo muito oldschool, a banda representa e propaga o que há de melhor da primeira fase do estilo, misturando também a fase inicial do black metal em sua sonoridade. Apresentação muito técnica e pesada, era a primeira vez da banda aqui em Goiânia. Confesso que não conhecia o som e fiquei impressionado com a apresentação, com o vocal-berrante que ecoava pelas paredes da salinha e observei o público compenetrado no som do começo ao fim. Depois dessa avalanche voltei pro espaço externo, conversando com gentes de todos os tipos, cores e visuais. Em determinando momento em que eu estava num bolinho de resenha, rolou uma situação das mais inusitadas e um tanto hilária bem no momento em que um amigo foi pedir o isqueiro emprestado paraumas meninas que estavam do nosso lado. O esquema já virou piada interna dos nossos rolês. Passado isso, era a vez do Sociofobiasubir ao palco pra destilar o seu metalpunx mais que tradicional, já tinha algum tempo que eu não via a banda em ação e foi massa ver a força e a energia dos caras depois de tanto tempo tempo de banda, mais de 15 anos na ativa. As apresentações são sempre clássicas e com um ar de nostalgia, algo parecido que presencio quando vejo oDesastre tocando por aí.

Depois disso fui pra portaria ajudar no controle de entrada e saída de gentes, sempre um probleminha chato que rola nos eventos undergrounds, mas sempre consegue-se controlar e levar tudo na moral.Faltavam as duas principais bandas da noite pro baile ao avesso terminar, e a penúltima deu a machadada final e iniciou-se o rito na salinha. Adentrei e senti um clima pesado, era a Lápide vociferando o seu black metal, tocado mais arrastado e muito performático por parte do vocalista. Rostos pintados (Corpse Paint) que davam um efeito visual mais macabro, vestimentas rasgadas, dando um tom de podridão e o público meio que hipnotizado com todo o enredo. Confesso que teve uma hora que minha pressão deu uma caída, não sei se por conta do calor humano junto com a falta de alimentação adequada ou por conta da carga pesada que a apresentação da banda conseguia transmitir. Saí pra tomar um ar e comer um cachorro quente que me dissseram que era a fina flor pra larica. Fui lá, devorei um em poucos minutos, apoiado num pallet que localizava-se na parte gramada do local.

Devidamente alimentado e rebobinado para o consumo de mais algumas ampolas de cerveja, numa conversinha marota aceitei o convite de prolongar o rolê em algum bar da região. Empolgado e ao mesmo tempo com um sonão da massa, fui conferir a derradeira apresentação daquela noite, era a tão esperada Velho. Praticamente invertendo os integrantes da Lápide e trocando o vocalista, a banda começou o esquema bem alucinante, com o público delirando e cantarolando as cantigas de forma bem fanática. Também com os rostos desenhados, o som do Velho era algo mais acelerado, cru e direto. Com o bucho cheio e sacudindo o tronco espinhal de forma bem tosca, senti um certo embrulho no estômago, mas segurei as pontas e continuei firme prestigiando ali na lateralzinha do palco. Senti cheirinho de enxofre e uma impressão de que satanás ficou feliz (se é que pode citar este sentimento sobre o canhoto) com tudo que aconteceu naquela noite agradável. Esquema muito bem organizado, acho que era minha primeira vez na Toca o Coletivo e amay o espaço e a logística do lugar de shows e venda de cerveja/rango. Terminado os shows, um som ambiente ditou o ritmo do fim do ritual e a conversa firmou em prosseguir em outro lugar. Cansado do jeito que eu estava, só despedi do pessoal, peguei um Uber e aterrizei uns 20 minutos depois em minha nobre cama. Belo dia e ótimo rolê, agradeço aqui as bandas que pude ver e a organização, mais coisas do tipo tem que acontecer por aqui.

5.4.18

Fuck Namaste - S/T (2018)




Depois do caos que vivenciei hoje na região central de Goiânia por conta de um temporal satânico, a vontade era de ouvir algum som que representasse toda essa carniceria que a natureza proporciona juntamente com a falta de estrutura de uma cidade-província. Veio um caminhão de milho de bandas em minha mente, mas lembrei de uma que ouvi nessa semana e que marquei em minha agenda de escrever algo sobre. Bom, não tinha dia mais que ideal pra falar sobre a Fuck Namaste, banda nova lá de Caucaia/Fortaleza e que conta com a amiga Priscila nos vocais. 
O primeiro registro da banda saiu em janeiro desse ano, sem título, sem enrolação e explorando o que há de mais rápido e sujo dentro do powerviolence/fastcore. Bom, posso dizer que de primeira eu gostei do nome, que soa meio que um foda-se pra galerinha good vibes que possuem dreads bonitos e aplaudem o sol. Posso dizer também que o som me agrada bastante, pois esse esquema de som rápido, curto e sem muita estrutura ainda pega o cabra aqui de jeito. Sabe aquela coisa de vocal de gato engasgado, guitarrinha abelhuda e e percussão do olodum acelerada em 15 vezes? É disso que eu gosto, e ainda consigo ouvir um pedaço de doom aqui, uma hardcorezinho ali, que sempre dá pra ensaiar uma dancinha sem compasso no circle pit. Na derradeira cantiga tem um cover de Fuck On The Beach bem alucinante, vale ouvir umas dez vezes.
De verdade, a parte ruim é que acaba rápido e  parte boa é que é só colocar no repeat, chamar algum rango barato, boas amizades, drinks esdrúxulos e fazer aquele rolê-delícia na casa de alguém sem juízo e ter boas histórias pro dia seguinte. Bandinha bem massa que vale conhecer e propagar pelo submundo do som, pois são músicas que não lavam a alma e nem tem a intenção pra isso. Gostei do que ouvi!



1.4.18

sexta santa quase infinita

Após uma quinta santa que teve desde pessoas dando ingressos pra prestigiar o filme do edir macedo até boas pescadas de minha pessoa no bar da cida, a sexta da paixão prometia ser bem agitada, muito por conta dos rolês que já estavam esquematizados com certa antecedência e também pela oportunidade de aproveitar o feriado ao lado de boas gentes. 
O começo da quase infinita saga foi numa escola do Parque Acalanto, zona sul daqui de Goiânia. Fui acompanhar o rolê de stencil dos manos Renan (Coletivo Kaiser Crew) e Rustoff, além de mais uns manos do grafitti. No local já estavam alguns malacos e um bom rap rolando pra ditar a trilha daquela manhã ensolarada. Revi conhecidos, tive o prazer de ver o processo de pintura dos caras e em determinado momento fui convidado a comandar o som. De Wu Tang Clan, passando por Mzuri Sana e terminando com Black Helicopters do Non Phixion, o esquema todo terminou já no gongo do almoço, tudo muito massa e o cansaço gritando por todo o meu corpinho. Vale lembrar que eu estava viradão do rolê do dia anterior e só apareci em meu lar mais de 24 horas depois. 
Devidamente descansado, banhado, cheiroso e revigorado, era chegada a hora de recomeçar os trabalhos do dia, e o crime da vez era conferir a apresentação dos neozelandeses do The Cavemen e a nova formação do Bang Bang Babies. Antes, rolou a clássica session de discos no quarto mais movimento do Jarinão (prédio clássico do centrão) e depois fui fazer a função de descolar uma bateria pro evento, acompanhado de dois cabras da melhor qualidade. Tudo resolvido, partimos pro local do forró de cego, que no caso era o Shiva, bar descolado da região central da cidade e que iria receber naquela boa noite os shows das bandas citadas anteriormente. 
Chegando na porta da boca do local, dei uma leve olhada pra dentro do ambiente e notei que já estava bastante cheio, então tratei de agilizar o pagamento de minha entrada e garantir algum lugar estratégico pra começar a fazer o uso de bebidas. Antes, conversei com alguns conhecidos, os gringos da banda e consegui com certa dificuldade arrumar cadeiras pra sentar numa mesa que aos poucos foi preenchendo com um bom aglomerado de amigos. 
Entre bons papos sobre Basquiat, Hermeto Pascoal e rumos da política nacional, os primeiros acordes surgiam da pequena salinha interna do bar. Era a vez do Bang Bang iniciar as atividades sonoras da noite. Firmei num lugar estratégico da apertadinha sala e pude conferir a banda em ação com o seu novo percussionista, Julio Baron, cabra que segura as pontas de algumas boas bandas da cidade (Frieza, WxCxM, Ímpeto. E o que eu posso dizer depois do que presenciei é que a banda ganhou mais força e aceleração, músicas mais rápidas que colocaram o pessoal pra sacudir os corpos sem nenhuma hesitação. Pedrim com uma baita presença de palco e reforço aqui mais uma vez que a banda funciona muito bem em espaços mais pequenos, pois rola uma interação incrível. Teve até um Dead Rocks ali de lambuja, dancei bastante e lembrou muito os shows que eu presenciei no saudoso Capim Pub. 
Voltando para os aposentos situado na parte externa, logo começou uma chuvinha boa, fazendo com que parte das gentes presentes ficassem mais próxima. Climinha de balada torta era o que aparentava. Com uma playlist ao fundo que passeava entre Bikini Kill e Ramones, minhas idas ao balcão eram frequentes pra consumir uma bela latinha de cerva que estava com um preço razoável prum evento daquele naipe. Perambulei por alguns ambientes do espaço e topei com amizades de longa data que achei bem legal em rever. 
Mais alguns bons diálogos e era a vez dos gringos do The Cavemen mostrarem o seu poderoso som. Minha expectativa era grande por conta de alguns relatos de pessoas que tinham ouvido o som ou visto a apresentação do quarteto podre. Com um visu que lembrava muito as bandas de garage punk, os cabras começaram o torpedo sonoro que quase causou uma catarse em quem estava presente. Não eram muitos, pelo bom número de presentes por todo o ambiente, o que posso falar é que aqueles que não viram, perderam uma das melhores apresentações de rock torto que essa cidade já teve. Uma mistura suja e agressiva de Iggy & Stooges, Saints, Cramps e mais alguma coisa foda relacionada. Fiquei completamente anestesiado após o arsenal sonoro apresentado e pude notar essa impressão nos rostos e nos comentários daqueles que estavam presentes. Goiânia e o submundo precisam de mais bandas desse calibre. Agradeço aqui a Mandinga Records por proporcionar essa maravilha por um preço mais que acessível.
Parcialmente recuperado da avalanche dos neozelandeses, fui tomar um bom ar do lado de fora do espaço e passado alguns minutos, parte do bonde do pessoal de Brasília chegaram no Shiva, pois do outro lado da cidade estava acontecendo outro rolê com banda gringa (Adacta). Pícaro & Cia tomaram o lugar de assalto e o esquema estava tão massa e com papos engraçados que fomos expulsos do bar (rizos) e terminamos a madruga de forma clássica comendo um x-podrão no xodog. Uma sexta quase infinita que ainda rendeu boas histórias e risadas no dia seguinte. O mundo precisa de mais dias como esse. Obrigada. 


13.3.18

O mantra invertido de uma segunda ao avesso






Depois de passar por um finds de intensa diversão ao lado de boas gentes, a inusitada e ressaqueada segunda-feira ainda guardava boas surpresas para esta pessoa que aqui escreve. Cumprida as cruéis oito horas diárias (acrescidas de hora extra) de um dia quase arrastado e sem muito ânimo, fiz a minha peregrinação quase que rotineira de caminhar ouvindo algum som (Azymuth – Águia Não Come Mosca) em destino ao Jarinão (prédio localizado bem no coração do centro de Goiânia). Estabelecido no local citado, meu primeiro objetivo era comer alguma coisa pra forrar o bucho e não deixar a saúde e o físico em situação comprometedora. Quase matei uma espécie de PF que intitulam de jantinha lá no Bar da Cida. Um sertanejo tocando numa televisão estendida por um suporte já bem desgastado. Na rua, alguns meletas (aka moradores de rua) perambulavam pra lá e pra cá atrás de algumas moedas pra aliviar a pressão em cima da pedrinha preciosa. Cervejas desciam na mesa e eu não estava habilitado a beber naquela dia. Tudo bem, aceitei a condição.

Terminada a missão da larica desenfreada, a próxima meta era chegar na porta do Complexo, lugar que estava recebendo uma das datas da No Hope Tour, que junta dentro de uma Kombi as bandas Test e Deaf Kids pra uma gira por várias cidades neste mês de março. Logo na porta encontrei com os caras das bandas, troquei uma ideia rápida, dei mais um tempo ali na redondeza e adentrei ao espaço (que já é um dos pontos da cena alternativa da cidade). Fazendo um breve reconhecimento do terreno, topei com gentes conhecidas, figurinhas carimbadas do nosso underground também faziam-se presentes, preenchendo bem o espaço. Sentei num pallet e fiquei matando um pouco do tempo enquanto os shows não começavam.

Entre um gole numa água mineral, boas risadas de idiotices e superando o cansaço do corpo, adentrei na salinha das apresentações pra prestigiar mais uma vez o Frieza. E eu digo aqui mais uma vez: se  ainda não viu este trio ternura em ação, está perdendo a melhor banda da atualidade deste lado de cá. E nessa ocasião não foi diferente, os caras estão com a navalha na alma e com um entrosamento que causaria inveja no Kraftwerk. Com um bom público prestigiando e entrando no mesmo mantra transmitido pela banda, em determinado momento quando vi o Bruno Caveira entrando na salinha, juro que imaginei o homem tirando uma cdj (cedêjota) do bolso e começando a discotecar alguma coisa tropical com batidas descompassadas, já que se deixar o cabra discoteca até nas plataformas do eixão. Brincadeira à parte, essa foi disparada a melhor apresentação que vi da banda e conversando rápido com algumas pessoas, a opinião era a mesma. Entrosamento absurdo, intensidade que impressiona e uma entrega que faz valer cada real e esforço pra estar presente nisso que eu chamo de troca de energia através do som sincero. Me impressionou muito, mais uma vez.

Saí pra tomar um arzinho, ver pessoas e apreciar as banquinhas de merchans. Muito material atrativo pra pouco dinheiro, logo saí de perto pra não atiçar o meu lado consumista. Sentei num canto e observei a boa movimentação de corpos pra uma segunda de rolê inusitado. Num daqueles momentos “Tim Maia na fila do banheiro”, teve gentes mandando um tequinho na carteira de trabalho, um deboche elevado contra as falidas leis trabalhistas deste país. Momento de lazer e descontração que cada um merece e faz da maneira que acha necessário. Passado isso, alguém grita que estava pra começar o ritual do Test. Gosto bastante da banda e fui ligeiro pra pegar um bom lugar na sala pra ver como estavam os cabras, depois de um bom tempo sem presenciar uma apresentação da dupla. E foi diferente de tudo que eu já tinha visto deles. Falar da incrível rapidez do Barata nas baquetas já soa meio clichê, mas é sempre válido reforçar que o menino impressiona, e muito. O João continua com a mesma pegada excêntrica e agressiva de sempre, e a surpresa durante o ato foi a presença de uma percussão tribal feita pelo batera do Deaf Kids. O transe sonoro se fez presente naquele espaço e algumas entidades desceram e fizeram o seu pogo invisível. Energia intensa, corpos e olhos hipnotizados. Saí de lá parecendo que tinham me dado um banho de sal grosso, purificado. cansado e renovado.


Mas ainda faltava o Deaf Kids, que era a atração mais esperada da noite, muito por conta do lançamento de disco deles pelo selo do Neurosis e também por eles estarem na grade de programação do Bananada. Vi algumas cabeças que comumente não são vistas neste tipo de rolê, fato legal vale dizer. Falando da apresentação do trio, do começo ao fim foi uma definição do indefinido. Reverbs, distorções, experimentos, introspecção, tribal primitivo, introspecção e mais uma dose de noise muito bem elaborado. O tribal rústico, algo que lembrou muito o Maracatu da zona da mata entrelaça muito bem com toda a gama de estilos que a banda explora e insere em seus sons, feito pra descer de forma lenta e carregada de sensações/percepções. Chapei com toda a liturgia do canhoto que estava presentes nos acordes, nas batidas, nos ecos e em todo o ambiente completamente em transe profundo. Observei alguns corpos fora de seu plano, inclusive teve o baubau do Aneudes dando a sua aloprada clássica da metade pro final do rito. O saldo final disso tudo foi uma profunda catarse sonora e que me deixou com os sentimentos meio aflorados por bons minutos. Incrível.

Ao final da boa jornada, eu estava meio zumbi/meio eufórico com o que eu tinha visto, e eis que o João me intima no canto querendo uma palavra minha sobre a banda prum documentário que eles estão gravando sobre esta turnê. Não deu certo, pois eu estava ligeiro e dependendo de uma boa carona que salvou a minha noite/madrugada, mas que deixo aqui os meus sinceros agradecimentos pela consideração e lembrança pra participar de um registro importante da banda. Outras oportunidades surgirão. E pra finalizar, depois de um tempo afastado das atividades do underground clandestino, foi muito gratificante rever pessoas daqui e amigos de outras cidades. Em plena segunda-feira ver o Complexo mais cheio que num final de semana foi algo muito legal de presenciar e perceber que Goiânia ainda é carente de eventos de qualidade com preços honestos. Minha única reclamação fica comigo mesmo, que entupiu o cu de cana no final de semana e ontem mal conseguiu terminar uma latinha de Sprite. No mais, muito obrigado aos envolvidos, a vida imunda conduzida de maneira inversa ao proposto agradece sempre.

Obs.: Saudade pra caralho de fazer resenha tosca.

20.2.18

Hutt - Apocalipster (2017)


Hutt é daquelas bandas que passam do limite do grindcore extremo e chega numa sonoridade que não soar cansativo e nem repetitivo. Isso é comprovado em seu mais recente trabalho que recebe o nome de Apocalipster. Lançado no fim do ano passado pela incrível Black Hole Productions, o disco mostra uma perfeita sintonia de acelerações que rompem a barreira do grind tradicional, inserindo mais influências de sonoridade agressiva, repassando em pouco mais de vinte e seis minutos a força e originalidade do conjunto.
Seguindo a temática de horror que é uma marca registrada da banda, nesse registro as músicas se entrelaçam também entre temas sociais e políticos, espalhados em 25 faixas extremamente rápidas e caóticas. Destaque para a produção e para a concepção gráfica do encarte, que segue a linha de hq e que conta com imagens do acervo da revista Calafrio (1989). Pra quem coleciona discos e cd's este é um ótimo artigo pra ter em sua prateleira de sons horrendos. 
Eis aqui um grande trabalho de uma das mais importantes bandas da cena grindcore deste país, que remam contra a maré do óbvio e fortalecem dia após dia o lado b do underground nacional. Fudido, ouçam com as devidas proteções auriculares!


30.1.18

Tempos de Morte - Morte (2016)




Voltando dois anos no calendário, lembro que alguém tinha me mostrado esse som, mas que por algum acaso (uso descontrolado de droga) esqueci de falar dobre essa raridade sonora. Bom, a banda em questão é conhecida pela graça de Tempos de Morte e destila um excelente post punk, pra vagabundagem nenhuma botar defeito.

Em Morte a banda apresenta quatro maravilhosos sons que exploram toda a atmosfera da sonoridade deprê/obscura oitentista, transportando aquele que ouve para o clima sombrio das ruas e da vida amarga. O quarteto paulista deixa bem claro que aqui não tem o que inovar e nem inventar, seguir os passos de quem deixou o legado é necessário e por vezes coerente. Portanto se você gosta de post punk feito nos anos 80, essa banda e este registro é uma ótima pedida, sonzinho pra ouvir em dias angustiantes, acompanhado de uma boa bebida e leitura. Vai por mim, o esquema é cabuloso até umas horas, banda foda da peste!




16.1.18

Damn Youth - Breathing Insanity (2018)



O bom filho podre a casa volta e depois de uma bela queda que acabei esfolando a alma por inteiro retorno de vez com o mais imundo que pode existir ao que refere-se aos escritos de discos de bandas do lado b do subterrâneo. Para esse recomeço, nada melhor (ou pior) do que subir uma penca de quilômetros e  dichavar a mais recente obra do thrash maniac nacional. Estou dizendo do primeiro álbum da Damn Youth, bandinha maloqueira que situa-se em Caucaia/CE.
Resolvi começar por eles pelo simples fato de que fiquei retardado ouvindo esse play ao deslocar-se para a o semi aberto (aka trabalho) e no trajeto já ia matutando os escritos que iriam entrar neste espaço. Thrash Metal de bandidagem que baderna nas ruas, o disquinho chega frenético com 13 pogantes cantigas que exploram o melhor da velha escola do estilo, mesclando com o crossover forrozeiro de sempre. Logo de cara a faixa Fear Within que abre a bolachinha deixou o cabra aqui bastante empolgado com o que viria depois. E isso foi confirmado nas doze músicas seguintes, uma doidice de riffs, baquetadas, baixo berimbando sem piedade e vocais reverbados que depura qualquer ouvido seboso. Skate Revenge, Jurisdiction, Dynamite Is All That We Need, Reaching Extiction, Still Destroying the Paradise, Uncertain Days e No Future foram as que mais pertubaram o meu juízo e desejo que cause danos em sua mulêra também. O material ilícito é um lançamento da Cospe Fogo e 255 recs, e que já coloco entre os destaques dos lançamentos deste ano. Pelo jeito Vio-Lence, Slayer, Violator, D.R.I. Suicidal Tendencies & Cia ensinaram muito mais através de seus acordes e melodias aceleradas do que pais e professores do ensino tradicional. Esses doidos cearenses tiraram as devidas lições que podem ser ouvidas neste maravilhoso registro. 
No mais é isso pessoal, o blog voltou mais podre e imundo, pra falar sempre do que ninguém diz. Obrigada e espero que gostem.

ouça


12.7.17

Personal Choice - Choices





O ritmo aqui já não é mais o mesmo, a verdade é que de uns tempos pra cá só escrevo pra desenferrujar a ossada das articulações dos dedos e aliviar as tensões do cotidiano. Ainda recebo muito material, alguns interessantes e outros nem tanto, e confesso que a preguiça e o foco em outros horizontes me interessam mais nesse momento. Enfim, sem necessidade para mais explicações, digo que vez ou outra fuço sítios pra ficar um pouco situado do que anda acontecendo no underground e, sinceramente, quase nada me agrada, e meu refúgio ultimamente tem sido as coisas mais antigas, e dentro desse contexto cito o disco perdido do Personal Choice (se assim pode-se dizer), que ouvi depois de ler uma resenha na Noisey. Ouvindo "Choices", muitas lembranças de uma adolescência tímida veio à tona. Se o Hip Hop e o Rap me ajudou a ter uma identidade e consciência de raça, mesmo que rasa naquela época, o hardcore melódico (que era a influência do emo do Embrace) trouxe a urgência do diálogo dos conflitos internos e pessoais que qualquer adolescente passa. Lembro que o primeiro disco do Dance of Days (6 firts hits) fez tanto sentido em minha vida que mesmo em fases questionáveis da banda, consegui acompanhar sem apontar dedos. Nessa época pude conhecer melhor sobre anarquismo, vegetarianismo, straight edge, movimentos sociais, coletivos, zines e boa parte da subcultura do hardcore. Foi aí que a coisa desandou e é por isso que estou escrevendo aqui. E ouvindo o "Choices", mais velho e com uma certa experiência de cena, faz mais sentindo ainda todo o contexto do som, melodias, letras e postura. O disco em si não tem nada de novo pra quem acompanhou o lance todo, mas recomendo a audição do mesmo, pois remete à um recorte de lembrança de uma época muito sincera, talvez pela dificuldade do acesso ou pela falta do imediatismo da tecnologia, as coisas eram mais intensas e mais duradouras. E é por conta disso que resolvi postar algo sobre esse registro, que de certa forma reacendeu uma ponta preguiçosa de continuar fazendo à minha maneira as coisas que sempre acreditei. O mundo anda esquisito e a sinceridade que um movimento ou um disco transmitiu, vale muito nesse momento pra não deixar se entregar e seguir contra o vento. Valeu mesmo aos responsáveis.


Ouça aqui:

1.7.17

Novidades Atrasadas #03




Pessoas que ainda passam por aqui, venho através deste dizer que apesar da escassez, estou atenta as novidades do subterrâneo (bom, eu acho), e por essa razão, vez ou nunca este sítio recebe algum tipo de atualização. Nessa ediçãozinha fajuta, tentarei falar de alguns novos sons, zine, entrevista e mais alguma coisa que tornou-se relevante para esta tosca pessoa. Ora agoniza, ora dá um fio de esperança (tipo aquele time safado do Goiás), mas ainda gosto de escrever por aqui. Espero que gostem, ou não.


Inicio os escritos com uma banda que passei essa semana ouvindo, muito por conta de alguns compartilhamentos de amigos e também pelo fato de que sigo eles no inxta (aka instagram). Falo da banda Ximbra, oriunda de Maceió e que acabou de soltar o seu primeiro disco, o "A Maldição Desta Cidade Cairá Sobre Nós". Com uma pegada punk/hardcore que remete à sonoridade do meio dos anos 90 e começo dos anos 2000, o registro conta com 10 músicas cantaroladas em português, melodiosas, pesadas e intensas o bastante pra relatar a angústia das relações sociais com a cidade em que se vive. Destaque pessoal para a faixa "Capitalismo Antitropical" que ganhou vários repeats no play. Baita disco e banda, que indico sem nenhum pingo de dúvida para aquelxs que gostam de punk melódico e a coisa toda que vem correlacionada. Interessou? Procure a banda através das redes virtuais ou os selos (Transtorninho Records, Solar Discos, Banana Records, Oxenti Records) que montaram o clã pra lançar este maravilho trabalho. O underground agradece.

Ouça e descarregue aqui:



Ainda na semana que passou, pude assistir ao lero que o pessoal do Meninos da Podrera teve com o Facada. Entrevista da boa, com boas histórias, cachorrito firmeza roubando a cena nas imagens e Alípio Martins como trilha. Vinte e sete minutos de bons motivos pra entortar ainda mais a vida dentro do subterrâneo sonoro.







Uns meses atrás eu conheci a Rosa Idiota e por algum lapso mental, esqueci de postar algo deles por aqui. Dessa vez eu não deixei passar e aqui está pra quem tiver o devido interesse, "Circle", disco lançado no começo do ano e que explora o punk rock, rock alternativo 90's e post hardcore no decorrer de 10 faixas. A banda, oriunda Salvador, é uma das boas novas que ouvi nesse estranho ano e repasso a dica para xs demais. Sei também que o formato físico foi lançado pela incrível Oxenti Records, portanto, consuma materiais independentes sempre que possível e valorize as bandas da cena local de sua cidade. Essa é mais uma que deixe nos favoritos da pasta da área de trabalho.




Algumas semanas atrás estive em São Paulo pra dar um pião, e entre vários lugares que pude conhecer, retornei na Fatiado Discos pra acompanhar mais uma discotecagem do monstro KL Jay, e perambulando nas dependências do local, consegui um exemplar do jornal/fanzine SUBSOM, que está em seu primeiro número. Com boas entrevistas com as bandas Devotos e Urutu, e resenhas de discos, o folheto segue o formato de fanzines que circulam no underground e que chega pra somar e fortalecer a cena. O esquema é feito pelo Arthur (Flicts e Agrotóxico) e Favela (Deserdados), e vale muito ter uma cópia em mãos.
mais infos: https://www.subsom.com.br


Pra finalizar esse post, apresento-lhes o tributo do disco SUB lançado pelo Nada Pop, com 24 bandas tocando Ratos de Porão, Psykóze, Fogo Cruzado e Cólera. Entre os vários destaques, cito as participações do Mollotov Attack, A Ferramenta, Ratas Rabiosas, KOB 82, Desacato Civil, DER, Garrafa Vazia, Lomba Raivosa!, Luta Civil e Motim. Registro fudido e que teve o Nada Pop e Desobediência Sonora na arquitetura dessa bela homenagem ao disco mais punk desse nosso esgoto.

ouça


1.5.17

Novidades Atrasadas #02





Depois de uma sexta conturbada por esses lados de cá e com o lamentável fato ocorrido com o Mateus, e não deixando de citar a morte do mestre Belchior, retorno pra falar das Novidades Atrasadas, que chega em seu segundo número e que dessa vez vamos do psicodélico ao grindcore. Detalhe besta pra finalizar, só tá dando läjä recs nessa porra, o corno do mozine sabe fuder com o bolso e ouvido do povo bom.




Bom, dando o pontapé inicial para as mandingas sonoras, retrato o mais recente lançamento do chapa-trio paulista Lo-Fi neste sujo espaço virtual. Em "Meddling In Regressive Rock" a banda foge mais uma vez de tudo o que já produziu, dessa vez pegando pesado na parte do rock psicodélico, reverenciando aquela doidera do heavy metal chapado de lsd. "This Song Is You" reflete um pouco do que eu citei, e o registro como um todo tá numa lindeza que desde o meu primeiro contato, tornou-se um dos plays favoritos de minha lista de podridão sonora. A miscelânea de ritmos rápidos deixa o esqueleto estremecido e com dores nas articulações. "Motel Money" é uma cantiga feita pra ouvir em bom volume numa party com amizades melindrosas e bem acompanhas dos piores produtos tóxicos possíveis. Essa maravilhosa paulada é um lançamento Läjä, portanto, interessou-se, compre e decepcione seus pais e familiares. Nunca é tarde pra ser infeliz nessa vida.

obs.: tem uma versãozinha cabulosa pra "Prometo não parir pôneis" da Leptospirose

ouça aqui:





Desgraçando de vez com a vida alheia, chego dilacerando os tímpanos com o novo split da Facada, grindcore com peixeira no bucho de quem vacila. O disco em questão leva o título de "Primitive" e divide a britadeira sonora com os gregos da Stheno. Fico uns tempo sem ouvir grindcore e quando volto parece que me bate aquele arrependimento por ter interrompido o processo de decomposição de minha audição. Foi o que eu senti ouvindo a parte do Stheno, que conta com uma versão de "City Baby Attacked by Rats" do GBH e participação de Carlos James. A parte do chucho amolado na pedra é a maravilha decadente-niilista de sempre, grindcore cearense da melhor qualidade e com letras que perfuram profundamente o baço.


ouça a pedrada aqui:




Banda novinha da cena porto-alegrense, The Completers chega com aquele clima cinzento gostoso que o pós punk proporciona. Com duas músicas em seu bandcamp, a guitarrinha e o clima joy diviano contempla cada segundo de audição daquele que atrever-se a despertar a curiosidade pelo novo. Conheci por conta do mestre Villaverde e favoritei na aba de meu browser.

Foto da capa por: Lucia Marques

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Tropicalizando a quentura sonora, apresento-lhes a Aloha Haole, bandinha damassa de surf-punk lá de Teresina. Em fevereiro desse ano saiu "Summer on Mars" pela Läjä e que mostra o poder do instrumental do power-trio. São oito músicas que mostram uma boa mescla de surf music, punk, garage rock e pinceladas de stoner, ótimas de ouvir dando um rolê de skate pelas marginais da cidade. Aqui está mais uma maravilhosa banda desse nosso esgoto sonoro.


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Hardcorizando pra valer nesse seboso espaço, a B'URST! soltou no ano passado um épêzim com quatro cantigas. Com uma pegada NYHC cabulosa e sem massagem, "Grim Machine" é pesado, consistente e agradou muito a minha podre audição. Hardcore straight edge da melhor qualidade!

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